A camisa e a estátua | Mia Couto

Revista "Egoísta-Tropical". Ilustração para desdobrável. 2019

"… — Posso subir no Mouzinho?
O soldado olha para baixo para deparar com um menino negro, descalço, desmazelado e sem camisa. Não precisa falar, basta-lhe o olhar grave para que a criança se corrija. Há neste mundo os que carregam, sem precisão de prova, as culpas todas do mundo, O menino sabia, por estranha intuição, desta herdada condição. Porque logo ele murmura como um pedido de clemência:
— Desculpa, meu patrão. Estou a pedir subir naquela Sua Excelência, o nosso patrão estatuado. E acrescentou, apressado: é que a minha camisa voou-se e ficou pendurada na catana dele…
Sobrolho cerrado, o soldado espreita a estátua, bem no centro da praça e confirma um pano colorido balançando na brisa.
— Na catana? Que catana!?!
— Aquela lá, na mão do patrão Mauzinho.
— Respeitinho, rapaz. Primeiro não é Mauzinho. O nome dele é Mouzinho, herói nacional. Aquilo é uma espada. Percebes, pá?…"

Zé Cabral, a minha vénia ao teu anjo urbano. Um beijo bom. Ivone